Voando Azul
A procura de alguns mecanismos de defesa anteriormente acionados, quase podada trago a certeza que o corpo precisa voar.
RARO LIDO
ENGASGO
trago gole cuspido de café sem tomada
amargo olhar engolindo desejo seco
amarroto sorriso aliso rugas revistas
com alma enternecida trago um rumo
sem rio
saboreio não desfruto abro portas
passo luz deixo abertas finas frestas
visto vergonha engomada de pouca fé
no armário
goma endurecida vidro via cristal
toco troco comprado repasso dinheiro
gasto
apanho bagagem quebrada seco fio a fio
desentender a noite passar no trilho liso
esperar o fim da via
desconhecer-te
~~——//\O 26.05.2018
CLARABOIA
Carregava no olhar o que não poderia arrastar com o corpo. A alma pesada já não tinha o aroma de Lima. Emergiu das dunas de terra e percorreu um terreno vasto e solitário à procura do local do encontro. À sua volta, um amontoado de pedras, num entrelaçar de teias e lápides. Era noite, sem lua ou brilho.
Cabisbaixa, seguia arrastando as folhas secas do chão, agora mais leve de
culpa e medo. Há décadas, o tempo não existe, apenas um entretempo.
Os pássaros voam descompassadamente, de um lado para o outro.
Deitada, Joana é coberta por um lençol de areia, feito colcha de retalhos, que ela leva até os olhos, como costumava fazer com os lençóis de linho branco em seu antigo leito. Levanta-se com lentidão, como se tivesse criado raízes deixando pedaços de terra e lama para trás. Um rosto sem visco, incapaz de enxergar o caminho, rasteja lentamente, absorto.
Há um precipício repleto de pássaros. Pedro! Pedro! O espaço parece estrondar. Com o rosto agora mais figurado, ela o chama, assim telepaticamente.
Nesse penar, Joana procura amigos e pessoas queridas, com o cuidado de quem receia julgamentos. Joana passa entre as pessoas sem reconhecê-las Sensações de vazio e perda, estranhamento. Avista sua comadre, que diz: Peste.
Joana se assusta, mas não a vê, e prossegue, sem ar, procurando prumo. Esbarra em alguém, mas a percepção do estranhamento chega atrasada. Era Antenor.
pensa Joana durante o trajeto.
Vê uma confusão e hesita em ajudar, coisa que antes nunca havia
acontecido. Sussurra com olhar de desdém, encolhendo os bros. Vê o filho
em uma cama, enfermo. Resolve inferir. Pede ao Senhor pelo filho. a dor dele é sua. O filho a vê e sorri.
Teias de aranha, pedras escuras, os pássaros sobrevoam feito agouro.
Joana percebe que todos estão desaparecendo diante de uma luz que vem chegando. Pedro está do outro lado, mas a luz de Joana a impede de vê-lo.
Pesado, em tons de cinza e anil, o ar traz um efeito de céu, remota visão
de pássaros, que agora partem.
Fundem-se o lugar e o mundo. Joana se aproxima, tudo é luz. Já não arrasta o corpo, quase voa. Os olhos cegos e ainda pesados de areia ganham cor e ela se torna imensa, em forma e luz.
ESTRANHAMENTO
Estranhamento
andarilhos somos e de maneira a não
nos reconhecermos nos caminhos
do umbral.
possível estranhamento intergalaxial
com o tempo, as pessoas,
algumas externamente irreconhecíveis,
internamente ou vice-versa.
o espaço imenso entre o físico e as galáxias,
o temporal
triste coincidência de não nos reconhecermos.
estranho tempo disperso entre pessoas
e almas,
onde não há interação
apenas vácuo.
pessoas nascem, morrem,
tropeçam nos espaços,
perdem o visco, a vitalidade,
e, em sua totalidade, o pior: a essência.
apagam-se todas as luzes.
QUASE
RAROS GRÃOS
Feitos pedregulhos em meio a tantos outros,
desagregam-se em grãos.
No passar do tempo, adoecem na dureza
das escuras pedras.
Alguns raros grãos, unindo-se a outros
contra a força do vento,
tentam impedir uma necrose mental.
Tantos grãos partiram ainda mais
aos céus;
outros desfalecem como pedregulhos
em átomos,
invadidos pela ignorância regente da maestria,
aos cacos, em pó.
Então vemos a civilização decompor-se,
esfarelar-se,
esvaecer,
desaparecer.
Enquanto alguns grãos lutam insistentemente,
apesar do caos,
e de uma luz que ainda reflete.
Análise: ÀS LÁGRIMAS DEVOTAS – Manoel Botelho de Oliveira.
MARIA NINGUÉM
Droga!
De quem mais é a culpa?
Vejo sangue em tons
vermelho vivo e escuro
Capaz de não enxergar como pessoa
Matar a velha vista e só seguir cego
na imposta culpa
própria
ENDOVENOSO
ENDOVENOSO
Bolsa, tecnologia, batom
e alguma sabedoria high-tech.
Creem nesta vertente?
Cabe pior na pia
que nos acorrenta
desde a cria.
Sonhos virtuais
e a violência caminha real.
Temos maçã,
água tônica, fitness,
massa cinzenta
em escasso conduto;
tamanho esforço muscular
e pouco compreender.
Na labuta diária,
na batalha do ganha-pão,
suor e hipocrisia.
Não caberia outra via,
vida,
se não houver, nesta lida,
compreensão,
amor,
calmaria,
bom senso.
Julgo equivocado.
Em toda via,
uma veia
gama
fatidicamente
jugular?
VIDA DE MARIA
Ruth
RESENHA DO FILME “ESCRITORES DA LIBERDADE”
"MULHERES DE ATHENAS” - comentário.
Em “Mulheres de Athenas” (1976), composição de Chico Buarque e Augusto Boal, a submissão da mulher ao homem escrita em todos os versos.
“Mirem-se no exemplo...
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Athenas”
RESUMO DO CAPÍTULO “Texto, contexto e coerência”, do livro Os sentidos do texto
UM PODEROSO VÍRUS - CONTO
"A desgraça não chegou em forma de um lobo", mas de um poderoso vírus. Nenhum animal sabia que o estoque de vacina havia se esgotado. O primeiro porco, que não era burro, nem nada, antenado com as datas de vacinação preparado estava.
O segundo porco que também não era burro, estava mais para uma anta psicodélica, só se preveniu com uma das três doses. A anta completa do terceiro porco nunca se preocupou em procurar nada para se cuidar, certamente desconhecia a palavra prevenção. O rei da floresta ecoou com seu poder entre a maior parte das jabuticabeiras, imagine, e houve novamente corte nos gastos públicos. Assim não se saberia informar quando haveria reposição da tal vacina. O terceiro, bocejando disse: de que adiantaria a trabalheira de minha vida para ter construído uma melhor casinha, bah! Morreu conformado, o coitado. Os animais ouvem Bob Marley e se entopem de jabuticabas.
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